Tito Carlos Machado de Oliveira: “Já há algumas estimativas prevendo que, até o final da década de 2020, o mundo terá dez vezes mais muros do que tem hoje, na menor das hipóteses”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
“Vivemos um processo de fechamento seletivo de fronteiras no mundo”, dizem pesquisadores
Marco Weissheimer
O mundo vive hoje um processo de “desfronteirização”, fenômeno que se expressa, entre outras coisas, pelo fechamento de fronteiras entre países, muitas vezes materializado pela construção de muros. Já há estimativas prevendo que, até o final da década de 2020, o mundo terá dez vezes mais muros do que tem hoje, na menor das hipóteses. E esses fechamentos têm um corte seletivo, como mostra o trabalho de pesquisadores internacionais: dentro dos muros está cerca de 75% da riqueza mundial e 20% da população. Fora do muro é o contrário: 20% da riqueza mundial e 80% da população. Esses muros passam a definir, portanto, os marcos de ricos condomínios fechados e têm o objetivo de não deixar os pobres entrar. A avaliação é dos pesquisadores Tito Carlos Machado de Oliveira, Coordenador do Centro de Análise do Espaço Fronteiriço, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, e Adriana Dorfman, professora do Departamento de Geografia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em entrevista ao Sul21.
Tito Carlos Machado de Oliveira e Adriana Dorfman participaram do 34º Encontro Estadual de Geografia, realizado em Porto Alegre de 13 a 15 de novembro, numa iniciativa da Associação dos Geógrafos Brasileiros. A entrevista ao Sul21 foi marcada por uma coincidência histórica e temática. Ela foi concedida algumas horas antes dos atentados que atingiram Paris no dia 13 de novembro e abordou alguns dos temas que desafiam a política europeia hoje, como o fechamento das fronteiras em função de questões de segurança e da crise dos refugiados que está provocando o fluxo de algumas centenas de milhares de pessoas do norte da África e do Oriente Médio para a Europa. Os dois pesquisadores analisam também as principais características que definem o conceito de fronteira e rebatem o estereótipo que apresenta essas regiões como espaços de crimes e de violência.
“Quando você chega na fronteira, encontra um ambiente extremamente dinâmico e criativo. A maioria das pessoas gosta de viver ali. Em geral, são lugares mais cosmopolitas e tolerantes”, defende Tito Carlos Machado de Oliveira.
Sul21: O que define, exatamente, uma área de fronteira? Quais são as suas principais características?
Tito Carlos Machado de Oliveira: O conceito de fronteira tem uma dimensão, hoje, completamente diferente do que tinha até algum tempo atrás, quando era sinônimo de barrar, restringir e fechar. De um tempo para cá, a fronteira passa a ser vista como um ambiente de interação, de inter-relação. Apesar da dimensão de barrar e restringir estar ainda muito presente na cabeça dos governantes, nós tivemos um período extremamente rico na história das fronteiras a partir da Segunda Guerra Mundial até muito recentemente, no início dos anos 2000. Esse foi um período de grande expansão das fronteiras. Do ponto de vista teórico, vários estudiosos chegaram a afirmar que as fronteiras estavam se diluindo e que a tendência era, em um período breve, elas deixarem de existir.
Na verdade, essa era uma visão propositiva relacionada ao livre fluxo do capital. As pessoas estavam querendo abertura de fronteiras no mundo porque existia um processo de circulação do capital que tinha interesse em derrubar as imposições colocadas pelas fronteiras. Se olharmos o mapa da América Latina veremos um processo de ocupação muito intenso das fronteiras neste período. No Brasil, uma grande quantidade de cidades nasceu nestas áreas de fronteira. Também houve um crescimento expressivo da quantidade de assentamentos de trabalhadores rurais de 1986 até 2006. Tivemos um período de 20 anos onde mais de 80% dos assentamentos foram colocados em regiões de fronteira. Foi um período muito rico, que abraçou essa ideia de dissolução das fronteiras, relacionada, sempre lembrando, ao processo de expansão do capital.
Adriana Dorfman: Pesquisas mostram que dentro dos muros está cerca de 75% da riqueza mundial e 20% da população. Fora do muro é o contrário: 20% da riqueza mundial e 80% da população. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Esse cenário começou a mudar significativamente a partir da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, por conta dos desdobramentos dos atentados de 11 de setembro. A partir daí, tivemos um freio muito grande dessa expansão na direção das fronteiras. Antes, para o capital, todo ambiente de fronteira tinha uma perspectiva de abertura e de livre circulação de mercadorias. A partir daí, são estabelecidos alguns corredores para essa circulação. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, onde eu vivo e trabalho, há um corredor bem definido entre São Paulo e Santa Cruz de la Sierra, por onde circulam algo entre 6 e 7 milhões de dólares por dia, mas de 100 milhões de dólares por mês. Isso não é qualquer coisa. Em compensação, regiões que eram extremamente dinâmicas, como, por exemplo, Bela Vista e Mundo Novo, foram recrudescendo. O capital foi escolhendo determinados caminhos de circulação e não mais todos os lugares.
Sul21: Corredores por onde ele poderia fluir mais facilmente…
Tito Carlos Machado de Oliveira: Exatamente…
Adriana Dorfman: Nós temos um exemplo aqui no Rio Grande do Sul, que é a ponte construída em São Borja e que tem tudo a ver com o Mercosul e com a integração da indústria automobilística do Brasil e da Argentina. É uma ponte que tem um fluxo gigantesco, mas que não é um fluxo barato. Ele é rápido e competente, mas é caro. Todo o trânsito aduaneiro, incluindo controle sanitário, é feito em torno de meio dia. É um espaço isolado. Não há uma barraquinha de cachorro quente que seja. É exclusivamente para o capital. Outros trânsitos de produtos menos valorizados, com menos capital corporativo agregado, ocorrerão por Itaqui e por outros lugares próximos e não pelo corredor específico da ponte de São Borja. Aqui no Rio Grande do Sul, cabe destacar, a fronteira sempre foi um lugar de encontro, nunca foi um espaço de completo isolamento.
De um ponto de vista muito abrangente, uma das principais características com os quais a gente trabalha o conceito de fronteira é a ideia de descontinuidade. Temos um espaço, uma economia, uma cultura, pensados como continuidade, que, no meio do caminho sofre uma descontinuidade. Isso aí é a fronteira. Pode ser um controle, que é a expressão de um Estado, que marca claramente que, de um lado é uma coisa e do outro lado é outra coisa. Temos dois fenômenos diferentes aí: um é o processo de expansão e outro é o de descontinuidade.

